
Por Andreia Debon
O turismo em torno do vinho, da gastronomia e da cultura não é mais uma moda. Muito pelo contrário, hoje este segmento representa parte importante do faturamento das vinícolas, e não somente as localizadas em países com tradição e história, como Itália, Portugal, Espanha e França, mas de territórios nos quais a produção vitivinícola cresce a cada ano, como Moldávia, Geórgia e Croácia. Esses países, e pode-se incluir também o Brasil, estão investindo forte no setor e estudando maneiras para se diferenciar e cativar os viajantes prontos para desbravar as maravilhas deste tipo de viagem, que não inclui somente visitar a vinícola e degustar o vinho, mas entender o vinho e suas caraterísticas diante daquele terroir, além de harmonizar com a comida local. Para ter uma ideia do tamanho do mercado a explorar, de acordo com pesquisa da Agência de Consultoria e Inteligência de Mercado, Future Market Insights, este setor chegará a um faturamento de 358 bilhões de dólares até 2035.

Porém, há muitos desafios a serem enfrentados, dentre eles a necessidade de enriquecer as propostas no sentido de que as experiências se tornem mais autênticas e atrativas, além do aquecimento global e da diminuição do consumo de álcool entre as novas gerações. Essas temáticas foram discutidas em recente evento na Espanha, a Feira Internacional de Enoturismo (FINE), realizada em Valladolid. Na sua sexta edição, a feira reuniu 140 expositores, de 26 países, entre vinícolas, hotéis e roteiros turísticos da Espanha, Portugal, Itália (com a presença da região Sicília), França (com a região de Champagne) e Eslovênia. Foram mais de duas mil reuniões com agentes de viagens de todo o mundo, inclusive profissionais do Brasil. A jornalista e editora da Bon Vivant, Andreia Debon, esteve presente à convite da organização da feira.
Os destaques da feira foram alguns projetos espanhóis, como a já consagrada Marquès de Riscal e alguns roteiros menos conhecidos, mas com muito potencial, como as bodegas subterrâneas de Baltanás (em breve matéria aqui no site); Portugal, com o maior espaço entre todos os expositores, comprovando que o País está investindo forte neste segmento; a região da Sicília, na Itália, que focou, principalmente, nos diferenciais e nas potencialidades do terroir em torno do vulcão Etna e da ilha de Pantelleria.
A FINE é uma feira de negócios e, visto a crescente demanda, uma segunda edição será organizada ainda em 2025, mas na Itália, em Riva del Garda, nos dias 28 e 29 de outubro. Na foto abaixo estão os representantes de Espanha e Itália.

Desafios do Enoturismo
Durante os dois dias da FINE foram organizadas palestras com profissionais e estudiosos do enoturismo da Espanha, Itália, Portugal e França. A ideia foi apresentar os números positivos do setor e seu potencial, além de chamar a atenção para os desafios que o segmento tem pela frente. O principal deles é a criação de experiências atraentes aos visitantes, que não apresentem apenas o processo de elaboração do vinho, mas a história da família, do lugarejo e a sua ligação com o território. Mas isso de uma que prenda a atenção do visitante e faça com que ele seja o porta-voz do projeto. Outro item importante a ser observado pelos empresários do setor é a organização de experiências que atendam diferentes faixas etárias e condições de investimento. A autenticidade das experiências também é muito importante. “Elas devem contar uma história, chamar a atenção do visitante e envolver a todos, inclusive as crianças. E ser, principalmente, sustentável”, resume a especialista e consultora em enoturismo da França, Charlotte Fougère (foto abaixo), que foi uma das convidadas da feira. Ela já organizou diversos roteiros e é consultora em seu país.

Na Itália, por exemplo, em 2024, foram registrados cerca de 13 milhões de enoturistas, 71% participaram de alguma experiência de degustação em uma vinícola. “Isso significa que viagem foi prolongada. Então não se trata mais de um passeio rápido, o que percebemos é que as pessoas querem viver um turismo mais rural, fora das grandes rotas turísticas (a Itália registrou 45 milhões de reservas em hotéis em 2024, o dobro se comparado a França e Espanha). Investir no enoturismo significa promover a cultura da hospitalidade autêntica, e um dos exemplos que podem ser seguidos é Bordeaux e Borgogna, na França, que são sucesso e podem servir de inspiração.
Outros dois pontos discutidos durante a feira na Espanha foram as mudanças climáticas e a diminuição no consumo de vinho pelas novas gerações. Com relação ao clima, de acordo com os especialistas, num curto prazo já perceberemos variações em termos de sazonalidade, isto é, os períodos de alta temporada serão alterados – e isso já é visível com relação a vindima em alguns países. A colheita da uva é alta temporada para o setor do enoturismo. Já com relação ao consumo, é preciso atrair o novo consumidor e o desafio é fazer com que o turismo seja um meio para atrair a atenção dos jovens para que os mesmos tenham no vinho uma de suas bebidas preferidas. E isso pode ser feito através da vivência de experiências que envolvam tecnologia e música.
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